A 50 anos do golpe militar no Chile

Este ano recordamos dolorosamente um dos acontecimentos mais trágicos que viveu o nosso país, a queda violenta da democracia em Chile ocorrida a 11 de setembro de 1973.

As consequências depois deste acontecimento foram uma escalada de violações sistemáticas aos Direitos Humanos, pessoas detidas e feitas desaparecer, torturados, executados e exiliados. Homens e mulheres que foram vítimas de uma política de extermínio, apenas por pensarem de modo distinto ou por lutarem por um país mais justo.

A 50 anos de distância a memória, convertem-se em respeito e reverência por nosso povo ferido, pelos que deram a sua vida, pelos que injustamente lhes foi arrebatada, pelas famílias destruídas, por quem ainda não encerrou a sua dor e continua buscando os seus seres queridos.

Em Calama, foram 27 pessoas as que a Caravana da morte executou. Há dias atrás tivemos a fortuna de partilhar com a Senhora Violeta Berrios, Presidente do Agrupamento de executados e desaparecidos de Calama, ela “penteou” o deserto buscando o seu esposo, e é reconhecida por sua incansável defesa dos Direitos Humanos e pela busca de verdade e justiça no nosso país.

A 50 anos queremos que nunca mais se tinja de sangue a nossa terra.

Este poema de Hernán Rivera Letelier é uma homenagem às vítimas da ditadura.

A ESSE ALGUÉM…

 A esse alguém, homem ou mulher,

que caiu por ti nas masmorras.

A esse que pôs as suas mãos

para que não te arrancassem as unhas

das mãos tuas.

A esse que ocupou o teu lugar na grelha

e gritou e se contorceu,

e não vomitou o teu nome.

A esse que fizeram desaparecer

e cujos ossos que poderiam ser os ossos teus,

aparecem de vez em quando

como sinal de resistência.

A esse que foi arrastado por ti ao paredão

e rezou e chorou e se urinou frente à morte,

e depois sofreu a ignomínia de assistir a um simulacro.

A esse que enfrentou o pelotão de fuzilamento

e foi fuzilado, agora sim, com balas de verdade.

Balas que muito bem poderiam ter ficado incrustadas em teu peito.

A esse morto sobre o que hoje estás parado vivo

A esse que com a sua vida te deu sobrevida.

A esse alguém, homem ou mulher.

Aloja-o em teu coração

Abriga-o em tua memória

Que o frio do esquecimento não o toque.

Para que nunca mais em Chile.

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